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sábado, novembro 22, 2003
Fidelissimo Regi nostro Josepho Primo, Felice, Invicto, Pio, Augusto in sua auspicatissime equestris statuae
Quando a estátua foi posta no pedestal, o seu glorioso escultor [Joaquim Machado de Castro] não assistiu à cerimónia por ter sido expulso do local por um tenente da guarda.

A meio da praça, que era "arborizada por amoreiras da China e ornada de bancos duma grande sobriedade de desenho, do risco do arquitecto José Luís Monteiro, e de elegantes candeeiros que parece terem sido feitos para a Praça da Concórdia em Paris, ergue-se a mais bela estátua de Lisboa e de toda a Europa, a estátua equestre de D. José, a primeira que em bronze se fundiu em Portugal. É devida ao cinzel do grande escultor Joaquim Machado de Castro, tendo sido dirigida a obra de fundição pelo tenente-general de engenharia Bartolomeu da Costa.
A estátua foi fundida no Arsenal do Exército, de um só jacto, em 15 de Outubro de 1774. No dia 22 de Maio do ano seguinte começou a sua transferência para o Terreiro do Paço, no que se levou três dias e meio consecutivos, com grande cerimonial, sendo o carro puxado por mais de mil pessoas, entre as quais as de maior representação na cidade. No dia 2 foi posta no pedestal, não tendo o seu glorioso escultor assistido à operação por ter sido expulso do local por um tenente da guarda. Finalmente, a 6 de Junho foi a sua inauguração oficial, celebrando-se uma festa estrondosa, que ficou célebre nos anais."
A estátua pesa 29 371 quilos e tem 6,93 m de altura. Foram empregados na fundição 38 564 quilos de bronze, que se derreteram em 28 horas, enchendo-se a forma em 8 minutos.
sexta-feira, novembro 21, 2003
POMBAL, O TERRAMOTO, AS “VÍBORAS DA REACÇÃO” E A CIDADE NOVA - A BAIXA POMBALINA

(…) Em 1763 havia muitas casas feitas, mas estavam devolutas porque não havia quem as quisesse habitar; os lisboetas tinham-se entretanto habituado a viver em barracas. Mas uma nova lei veio ordenar a demolição de todas as barracas (…).
(…) O Plano de Lisboa foi desenhado e dirigido por arquitectos portugueses (…).
A cidade nova reflectia a concepção que o estadista tinha do Estado: planta geométrica e rectilínea, alçados iguais para todos os edifícios, ausência de palácios ou de qualquer sinal exterior que pudesse sugerir a nobreza do proprietário. Nenhuma porta diferente. A preocupação da uniformidade foi ao ponto de se decretar a proibição de alegretes ou vasos com cravos às janelas. As próprias igrejas foram obrigadas a alinhar pela altura dos demais prédios e também o desenho delas foi feito pelos arquitectos do Estado.

Na praça principal reuniam-se as forças que para Pombal deveriam formar o país: nos andares nobres as Secretarias de Estado, por baixo delas, a servir-lhes de suporte, as lojas do comércio. E a presidir à imensa parada, a estátua do Rei, cujo cavalo avança esmagando víboras [as víboras da reacção]”.

quinta-feira, novembro 20, 2003
A BAIXA - "Livro de Bordo / Vozes, olhares, memorações " [6]

quarta-feira, novembro 19, 2003
Preservação do valor arquitectónico e simbólico da Baixa Pombalina - Projectos de Intervenção [1]
A Baixa Pombalina e o Ordenamento do Território
"Enquanto Organização Não Governamental de Ambiente, o GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente defende políticas que integrem de forma harmoniosa os aspectos humanos e naturais. O património cultural surge assim como uma componente essencial do Ambiente Urbano e do Ordenamento do Território.
A Baixa Pombalina é, neste contexto, um caso de valor arquitectónico singular, por ter origem num plano (ao qual deve a sua homogeneidade urbanística, invulgar em contextos urbanos históricos, onde predomina a arquitectura tradicional), possuindo também um forte valor simbólico, mesmo para os que não são lisboetas, como se observou durante a discussão pública do projecto do elevador de São Jorge.
Contudo, os seus problemas não diferem daqueles que se observam noutros centros históricos, nomeadamente despovoamento, manutenção das características arquitectónicas e sua adequação a novos usos e necessidades, conservação e recuperação de edificado, regulação de circulação e dos estacionamentos.
No parecer elaborado pelo GEOTA sobre a revisão do PDM de Lisboa, foi proposto que a Baixa fosse alvo de um plano integrado, que proporcionasse normas de actuação e linhas estratégicas para repensar esta zona, inclusive como espaço de lazer (à semelhança do que se passou na EXPO 98). Uma candidatura da Baixa a Património Mundial poderá ser o ponto de partida para uma intervenção concertada, que valorize este espaço sem o cristalizar, uma vez que o que observamos hoje resulta de séculos de actividade humana (não esquecendo a especial atenção que merece o património arqueológico, em grande parte "invisível", mas de grande valor nesta área).
Em termos de Ambiente Urbano os maiores problemas da Baixa são o ruído e a poluição atmosférica, indissociáveis dos problemas de trânsito (veja-se como a fachada da Estação do Rossio está a degradar-se, após uma intervenção ainda recente). As soluções poderão passar pelo uso exclusivo de transportes públicos (privilegiando o eléctrico), pela procura de novas soluções para as cargas e descargas, e pela adequação à circulação de bicicletas. É ainda essencial criar um espaço público de qualidade, coerente em termos de sinalética, mobiliário urbano, e integração de espécies naturais e de obras de arte.
Muitas destas questões carecem de soluções metropolitanas, destacando-se a gestão dos transportes, a ser efectuada, espera-se que num futuro próximo, por uma autoridade metropolitana.
Por fim, é essencial a participação da população nos processos de tomada de decisão, pelo que os estudos a realizar deverão contemplar a identificação do modo como a população representa e vive este espaço. Não podemos esquecer que a Baixa é também um ponto de passagem, e de trabalho, e que qualquer intervenção terá de considerar a interacção com os bairros adjacentes, com toda a cidade, e com a envolvente a que está historicamente ligada: a linha de Cascais, a margem Sul e o próprio rio, cuja ligação à Baixa merece ser repensada."
Filipa Ramalhete – Grupo de Ordenamento do Território
Separata do Jornal Expresso de 2 de Fevereiro de 2002
terça-feira, novembro 18, 2003
A BAIXA - "Livro de Bordo / Vozes, olhares, memorações " [5]
Praça sem dono é o que significa Rossio em português arcaico. No século XIX, mudaram-lhe o nome para Praça D. Pedro IV devido à estátua que lá puseram do imperador Maximiliano do México, a fingir de D. Pedro, falhados tantos projectos para colocar ali um monumento que substituísse aquele que lá existia , designado ridiculamente pelo povo como “galheteiro”. Mas a cidade nunca sancionou o novo nome. O Rossio continuou Rossio, até hoje, e, como sempre, palco de “explosões de poder popular”.
Foi no Rossio que 1372 o povo se reuniu para impedir o casamento de D. Fernando com Leonor Teles, "dama formosa, mas já casada"; foi para o Rossio que o povo arrastou o corpo desnudado do Bispo de Lisboa depois de o ter lançado torre da Sé abaixo por não ter repicado os sinos pelo Mestre de Aviz ; foi também lá que, em 1449, o regente D Pedro mandou construir o Paço dos Estaus, expressão que significa pensão de forasteiros - um "verdadeiro triunfo popular", já que os Estaus "libertaram os moradores do vexatório foro de hospedar em suas casas os fidalgos que lhes gastavam as camas, bebiam o vinho e, quando isso lhes vinha à cabeça, lhes dormiam com as filhas". Os Estaus [transformados mais tarde em sede da Inquisição] ficavam no local onde se ergue, desde o século XIX, o Teatro Nacional D. Maria II.
domingo, novembro 16, 2003
Teatro Nacional D. Maria II - Que estranha ironia da História!...
"Inaugurado em 1846, levado pelo fogo em 1964, reconstruído e reaberto depois, sucedeu ao Palácio dos Estaus - sede da Inquisição, ardido em 1836, após ter sido sede também da Regência e do Governo Provisório, Escola Normal, Câmara dos Pares e Intendência-Geral da Polícia."


Que estranha ironia da História - "sobre as ruínas da sede da Inquisição foi construído o Teatro Nacional ", poder e contrapoder?
De facto, se no mais profundo dos seus pisos nos lembramos do “marulhar das águas subterrâneas que há séculos ressoavam aos ouvidos dos condenados nas masmorras da Inquisição” no topo do edifício, no alto do frontão triangular, está Gil Vicente, uma das primeiras vítimas da Inquisição portuguesa,"cujas altas risadas incomodavam os ouvidos devotos de alguns conselheiros d'el Rei". Tudo isto, tendo ali, bem ao lado, o Largo de São Domingos, sinistro palco dos autos de fé.



























