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sexta-feira, outubro 15, 2004
|"Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa" ... "Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte"|. Álvaro de Campos
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...),
Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa,
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida, -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser , enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso sempre.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a Humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão para isso supor.
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo mais é estúpido como um Dostoiévski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado da vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei, Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.
[Álvaro de Campos]

quarta-feira, outubro 13, 2004
| A Gaiola Pombalina e a vulnerabilidade sísmica do edificado na Baixa |
Os resultados desse estudo não foram nada animadores e, no que concerne à Baixa, ficou clara a relação entre essa vulnerabilidade e o mau trato a que tem sido sujeito o edificado pombalino [a abertura de caves, obras de adaptação em lojas e nos andares, alteração de escadas, ligação de pisos, instalação de elevadores, aberturas para instalação de arrumos e casas de banho no saguão, modificações no telhado e, enfim, um rol de outras intervenções de lesa-património]; tudo isto levado a cabo por proprietários [públicos e privados] sem um mínimo respeito pela memória histórica de um património que José-Augusto França já ousou classificar por “obra-prima do génio humano”.
A juntar a esta impunidade verificámos ainda que as obras são realizadas por empresas não especializadas neste tipo de reabilitações, que se utilizam métodos e materiais “intrusivos” a este tipo de edificado, que as regulamentações do IPPAR são desadequadas nuns casos [repare-se no tipo de telha que se exige para as coberturas] e noutras insuficientes [preservação do saguão, manutenção de alguns elementos internos, salvaguarda das divisões estruturais, a utilização de materiais pesados sobretudo no chão das cozinhas e casas de banho, etc…].
E que dizer do controlo destas obras de intervenção sobre um património classificado que, no caso da Baixa, faz parte de um conjunto arquitectónico que não pode ficar à mercê de situações casuísticas???...
Não basta legislar é preciso fiscalizar.
Mas voltando ao quarteirão do Martinho da Arcada e ao estudo que a Universidade do Minho realizou aqui para testar a vulnerabilidade sísmica dos quateirões da Baixa.
Trata-se de um quarteirão onde “ mais de 50% do sistema estrutural do quarteirão foi profundamente alterado e apenas cerca de 20% do sistema estrutural se encontra ainda na sua forma original! Estes valores são por si só ilustrativos do estado de algum do património em Portugal”.
Por mais inovadora que tenha sido a engenharia anti-sísmica da gaiola pombalina, neste momento em alguns edifícios da Baixa, essa estrutura encontra-se bastante fragilizada com as alterações a que os mesmos foram sujeitos.
Resta-lhes apenas uma consolação: apesar destas fragilidades o sistema anti-sísmico mais avançado do século XVIII aplicado pelo Marquês às casas da Baixa continua a ser o mais seguro de todo o edificado de Lisboa.

segunda-feira, outubro 11, 2004
| SE...| como dizia Eça na Carta a Ramalho Ortigão "Lisboa... deu-nos a nós – que diabo!”.|
... |Se| existe um “Amo-te Chiado”, uma “Alfama - Quem Cuida Ama”, um Fundo Remanescente de Reconstrução do Chiado (FRCC) - porque razão não há-de existir também um |Amo-te Terreiro do Paço| e um fundo de reabilitação para a Baixa [já que as sociedades de reabilitação urbana – as SRU ainda não saíram da gaveta]?... Como dizia Eça na Carta a Ramalho Ortigão em 20 Jul. 1873, “Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa... deu-nos a nós – que diabo!”.


fotos de Luís Carvalho e
Sylvie Fondacci

























